Entre a aristocracia cafeeira mineira e a Era Vargas
1885 - 1949
João de Rezende Tostes (Juiz de Fora, 24 de dezembro de 1885 - 6 de outubro de 1949) foi advogado, fazendeiro e político brasileiro. Foi eleito deputado federal por Minas Gerais em 1934, exercendo mandato entre 1935 e 1937 pela legenda do Partido Progressista de Minas Gerais, até a dissolução do Congresso Nacional com o golpe do Estado Novo.
Destacou-se pela forte proximidade com Getúlio Vargas e pelas frequentes visitas presidenciais à Fazenda São Mateus, em Juiz de Fora, propriedade da família que se tornou importante espaço de articulação política durante a década de 1930.
Filho de Cândido Bernardino Teixeira Tostes, um dos maiores cafeicultores de Minas Gerais e presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, pertenceu à aristocracia cafeeira da Zona da Mata Mineira.
Foi pai de Lahyr Paleta de Rezende Tostes, deputado federal constituinte em 1946, e sogro de Ilka Maria de Andrada Tostes, filha de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, conectando a família Tostes à histórica linhagem política dos Andradas.
João de Rezende Tostes nasceu em 24 de dezembro de 1885, em Juiz de Fora, filho de Cândido Bernardino Teixeira Tostes e Maria Luiza de Rezende.
Pertencia a uma das famílias mais influentes da Zona da Mata Mineira. Os Tostes consolidaram fortuna e prestígio político durante o ciclo do café, integrando a aristocracia agrária que exerceu forte influência econômica e social em Minas Gerais entre o final do século XIX e as primeiras décadas da República.
Seu pai, Cândido Tostes, destacou-se como um dos maiores cafeicultores do estado, proprietário rural, industrial e presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais. Pelo lado paterno, João de Rezende Tostes era sobrinho-neto de Antônio Dias Tostes (1777–1850), o patriarca que fundou o patrimônio fundiário da família na região do Paraibuna e cujas terras deram origem ao centro da cidade de Juiz de Fora.
Pelo lado materno, João Tostes descendia de tradicionais famílias ligadas à formação política e econômica de Juiz de Fora durante o Império. Sua mãe, Maria Luiza de Rezende, era filha de Geraldo Augusto de Rezende, primeiro e único Barão do Retiro, vereador, Agente Executivo (prefeito) e presidente da última Câmara Municipal de Juiz de Fora no período monárquico.
Maria Luiza de Rezende Tostes também ocupou posição de destaque no círculo social e político da família. Durante uma das visitas de Getúlio Vargas à Fazenda São Mateus, o presidente declarou homenagear "a mulher mineira na pessoa da veneranda senhora Maria Luiza de Rezende Tostes".
O Barão do Retiro era filho de José Ribeiro de Rezende, primeiro e único Barão de Juiz de Fora, importante proprietário rural, presidente da Câmara Municipal e uma das principais figuras políticas da cidade no século XIX, agraciado com o título nobiliárquico por Dom Pedro II em 1881.
Naquele período, Juiz de Fora consolidava-se como um dos principais centros econômicos de Minas Gerais, com forte atividade industrial e produção cafeeira.
João de Rezende Tostes casou-se com Carmen Sílvia Paleta de Rezende Tostes, filha de Constantino Luís Paleta, advogado, jornalista e deputado federal constituinte em 1891.
Por meio dessa união, aproximou-se de outra importante família ligada à vida política de Juiz de Fora nas primeiras décadas da República. Carmen Sílvia também era neta de Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld, engenheiro alemão que traçou o plano urbano de Juiz de Fora.
O casal teve como filho Lahyr Paleta de Rezende Tostes, deputado federal constituinte em 1946 e signatário do Manifesto dos Mineiros contra o Estado Novo.
A carreira política de João de Rezende Tostes se fez nos anos de ascensão de Getúlio Vargas, depois da Revolução de 1930.
Ao longo da década de 1930, tornou-se uma das principais lideranças políticas de Juiz de Fora.
No pleito de 14 de outubro de 1934, foi eleito deputado federal por Minas Gerais pela legenda do Partido Progressista Mineiro, assumindo o mandato em 3 de maio de 1935.
O mandato transcorreu entre a radicalização ideológica dos anos 1930 e o fortalecimento do governo Vargas.
Durante esses anos, a Fazenda São Mateus transformou-se em importante ponto de encontro político entre representantes do governo federal e figuras influentes de Minas Gerais.
Segundo relatos do jornalista Wilson Cid, Vargas teria indicado João Tostes para a presidência nacional do setor cafeeiro.
O mandato parlamentar foi interrompido em 10 de novembro de 1937, quando o golpe do Estado Novo dissolveu o Congresso Nacional e extinguiu os mandatos legislativos em todo o país.
João de Rezende Tostes em 1936 — Carriço Filme
Apesar da proximidade construída ao longo da década de 1930, os registros históricos indicam que João de Rezende Tostes não acompanhou integralmente os rumos autoritários assumidos pelo governo de Getúlio Vargas após o golpe do Estado Novo, em 1937.
A instauração da ditadura provocou o afastamento entre Vargas e parte das tradicionais lideranças políticas mineiras que haviam apoiado a Revolução de 1930, mas que passaram a defender a restauração das instituições democráticas e do regime constitucional.
O fim do mandato, em novembro de 1937, encerrou também sua atuação política nacional.
As divergências refletiam tensões mais amplas existentes entre o governo federal e setores das elites políticas de Minas Gerais, especialmente ligados ao grupo de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, tradicional aliado de Vargas nos primeiros anos do novo regime.
Nos anos seguintes, o posicionamento político da família seria parcialmente retomado por seu filho, Lahyr Paleta de Rezende Tostes, signatário do Manifesto dos Mineiros e posteriormente deputado federal constituinte em 1946, durante o processo de redemocratização do país.
A Fazenda São Mateus, localizada em Juiz de Fora, foi a base do poder econômico e político da família Tostes na primeira metade do século XX.
A origem da propriedade remonta ao período colonial, quando a área surgiu como sesmaria ainda no início do século XVIII. Ao longo do tempo, a fazenda passou por diferentes proprietários até ser adquirida, em 1890, por Cândido Teixeira Tostes, um dos maiores cafeicultores de Minas Gerais.
A aquisição da propriedade coincidiu com a consolidação da República e com a expansão da economia cafeeira na região. Sob o comando da família Tostes, São Mateus passou a sustentar economicamente a projeção política da família em Minas Gerais.
O poder dos Tostes não se limitava à produção cafeeira. A família também ampliou sua influência através da atuação no setor financeiro, especialmente por meio do Banco de Crédito Real de Minas Gerais.
Durante a Era Vargas, a Fazenda São Mateus recebia com frequência autoridades, empresários, militares, jornalistas e representantes do governo federal.
Os registros históricos descrevem São Mateus como uma propriedade de grandes dimensões, composta por 26 quartos, 21 banheiros, 12 salas, varanda com aproximadamente 45 metros, igreja particular com capacidade para cerca de 200 pessoas e extensos jardins ornamentados por palmeiras imperiais.
Durante os anos 1930, a movimentação de ministros e assessores pela fazenda foi tanta que a propriedade passou a ser vista informalmente como uma extensão do governo federal em Minas Gerais.
A relação entre João de Rezende Tostes e Getúlio Vargas se construiu ao longo da década de 1930, na Fazenda São Mateus.
Ao longo daqueles anos, Vargas realizou sucessivas visitas à propriedade, frequentemente acompanhado de ministros, assessores, militares, parlamentares e familiares. As estadias mostram a proximidade entre o presidente da República e a família Rezende Tostes, e o peso que Juiz de Fora tinha na política nacional daqueles anos.
As visitas presidenciais receberam ampla cobertura da imprensa e dos cinejornais da época, especialmente através das filmagens realizadas por João Carriço, responsável por registrar importantes acontecimentos políticos e sociais de Juiz de Fora entre as décadas de 1930 e 1940.
Em abril de 1934, Getúlio Vargas escolheu a Fazenda São Mateus para comemorar seu aniversário longe do Rio de Janeiro. Acompanhado de Darci Vargas e de suas filhas, o presidente hospedou-se no solar da família Rezende Tostes, onde percorreu áreas da propriedade e participou de encontros sociais.
Em conversa realizada na varanda da fazenda com Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Vargas discutiu a possibilidade de transferência da capital federal para Belo Horizonte e da capital mineira para Juiz de Fora.
Getúlio Vargas hospeda-se com João de Rezende Tostes na Fazenda São Matheus (1934) - Carriço Filme
Em abril de 1934, o presidente Getúlio Vargas visitou Juiz de Fora para passar seu aniversário, celebrado no dia 19 de abril. A escolha pelo município não foi casual: Vargas nutria um afeto especial pela cidade, sentimento que, segundo Oswaldo Aranha, só perdia em intensidade para São Borja, sua cidade natal.
O destino escolhido foi o Solar da Família Tostes. Ao chegar, o presidente manifestou sua admiração pelo imóvel. Segundo o Diário Mercantil de 19 de abril de 1934, Vargas afirmou ter "achado admirável o solar dos Tostes, com o seu imponente aspecto senhorial". Em seu diário pessoal, explicou preferir passar o aniversário longe do Rio de Janeiro para não "molestar os outros com essas demonstrações mais ou menos convencionais".
Durante o almoço e após ele, a atmosfera foi de cordialidade e descontração. Vargas agradeceu a saudação recebida, declarando ter vindo "reconfortar-se dos trabalhos da vida pública buscando a tradicional hospitalidade mineira na encantadora fazenda de São Mateus". Após a refeição, percorreu pontos pitorescos da propriedade e fez sua oração na capela da fazenda.
O Jornal Gazeta Comercial de 20 de abril de 1934 registrou um episódio significativo ocorrido na varanda da fazenda: em conversa com Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Vargas teria proposto a transferência da capital federal para Belo Horizonte e da capital mineira para Juiz de Fora. A proposta nunca se concretizou, mas revela o peso político que Juiz de Fora tinha em seu imaginário.
A visita ocorreu durante o Governo Provisório instaurado após a Revolução de 1930, enquanto o país se preparava para a Assembleia Constituinte de 1933–1934. Era um período de intensa articulação política, e foi a família Tostes que Vargas escolheu como ponto de repouso. Ele voltaria à fazenda no ano seguinte, desta vez por uma semana inteira.
Em julho de 1935, Vargas retornou à Fazenda São Mateus para aquela que seria sua mais longa estadia em Juiz de Fora. Durante aproximadamente uma semana, a propriedade funcionou como centro informal de articulação política do governo federal. Ministros, militares e representantes políticos circulavam constantemente pela fazenda, enquanto despachos oficiais continuavam sendo conduzidos normalmente a partir de São Mateus.
Além das atividades políticas, o presidente visitou instalações militares, obras públicas e o Museu Mariano Procópio, além de participar de encontros sociais e festividades realizados nas propriedades da família Tostes.
Vargas chegou a Juiz de Fora em 20 de julho de 1935, hospedando-se novamente na Fazenda São Mateus. Segundo registros posteriormente recuperados pelo Jornal Panorama, a propriedade "se viu transformada em sede do governo, com todo o aparato, ministros entrando e saindo e correria de assessores para levar ao Rio os atos a serem publicados na Imprensa Oficial." Décadas depois, o jornalista Wilson Cid recordaria: "Na vinda dele aqui em 1935, ele transferiu todo o governo dele para Juiz de Fora, para a Fazenda de São Mateus."
Segundo o Jornal Gazeta Comercial, o presidente percorreu o Museu Mariano Procópio, a Fábrica de Estojos e Espoletas de Artilharia do Exército, o Quartel da Artilharia do Dorso, a coudelaria militar, obras do novo abastecimento de água e a represa em construção.
A rotina misturava política, sociabilidade e momentos de descontração: missas, almoços e jantares formais, passeios a cavalo, visitas às plantações de café e criações de gado, encontros políticos e festividades. Entre os episódios mais lembrados está a participação de Vargas em um samba realizado na Fazenda Santana, demonstração de sua capacidade de transitar entre a elite política e os setores populares.
Realizada em 25 de julho de 1935, a passagem pelo Museu Mariano Procópio tornou-se um dos momentos mais documentados da visita. Fotografias preservadas mostram Vargas acompanhado de João Penido, Lahyr Paletta de Rezende Tostes, Menelick de Carvalho, Afonso de Rezende, Alfredo Ferreira Lage e João de Rezende Tostes.
A estadia de 1935 ocorreu em período politicamente instável, com crescentes tensões entre comunistas, integralistas, militares e setores liberais sob a Constituição de 1934. Manter relações sólidas com Minas Gerais era fundamental para a sustentação política do governo federal, e a proximidade entre Vargas e os Tostes refletia exatamente essa articulação.
Em abril de 1936, Vargas retornou à Fazenda São Mateus para mais uma estadia junto à família Rezende Tostes. O ponto culminante da visita ocorreu em 21 de abril de 1936, quando Vargas assinou, na varanda da fazenda, o decreto nº 756-A relacionado à repatriação dos restos mortais dos inconfidentes mortos no exílio após a Conjuração Mineira.
Getúlio Vargas hospeda-se com João de Rezende Tostes na Fazenda São Matheus (1936) - Carriço Filme
A visita de 1936 ocorreu em momento delicado: poucos meses após a Intentona Comunista de 1935, o governo Vargas já avançava em direção ao endurecimento institucional que culminaria no Estado Novo no ano seguinte.
Um dos momentos mais importantes da estadia foi a missa celebrada na capela da Fazenda São Mateus pelo bispo D. Justino José de Sant'Anna.
Na varanda da Fazenda São Mateus, Vargas assinou o decreto nº 756-A autorizando a repatriação dos restos mortais dos inconfidentes mortos no exílio. Ao realizar a cerimônia em Minas Gerais, na fazenda dos Tostes, no dia de Tiradentes, Vargas associava simbolicamente seu governo à tradição nacionalista da Inconfidência Mineira.
A estadia de 1936 consolidou os Tostes como uma das famílias mineiras mais próximas do círculo político de Vargas. A família representava a aristocracia cafeeira mineira, mantinha influência parlamentar e servia como elo entre Juiz de Fora, Minas Gerais e o Palácio do Catete. A presença contínua de Vargas na fazenda era a demonstração pública dessa confiança.
João de Rezende Tostes ficou associado à memória política de Juiz de Fora na primeira metade do século XX.
Seu nome continuou ligado à Fazenda São Mateus, às visitas presidenciais de Getúlio Vargas, à aristocracia cafeeira da Zona da Mata Mineira e ao protagonismo político exercido por Juiz de Fora durante a Era Vargas.
Em reconhecimento à sua relevância histórica, o Governo de Minas Gerais sancionou, em 9 de dezembro de 1968, a Lei nº 5.111, que concedeu o nome "Dr. João Rezende Tostes" às Escolas Combinadas do Bairro Ipiranga, em Juiz de Fora. A homenagem foi oficializada durante o governo de Israel Pinheiro.
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